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domingo, 17 de abril de 2016

Um Passado Sombrio, de Peter Straub

"O mundo não é dividido em dois. Vocês têm o mal dentro de vocês, vocês contêm o mal, essa é a ideia básica."

Skoob || 392 páginas || Editora Bertrand Brasil
Sinopse: Em 1966, um carismático e astuto guru, de passagem por um campus universitário do Meio-Oeste norte-americano, reúne um restrito grupo de discípulos, entre estudantes de colegial e universitário de fraternidade, num ritual secreto que resulta em um corpo horrivelmente dilacerado, um garoto desaparecido e as almas abaladas de todos os envolvidos. Quarenta anos depois, um escritor de relativo sucesso e amigo de infância da maioria dos garotos que participaram do ritual – além de marido de uma das garotas envolvidas –, sai em busca de informações sobre essa noite aterrorizante, com um projeto de livro em mente. Porém, para consegui-las, precisará não apenas reencontrar antigos colegas com quem perdeu o contato há décadas, mas também incitá-los a reexaminarem os eventos inomináveis que os têm assombrado desde então. Ao revelar as histórias individuais dos membros do grupo, Um Passado Sombrio eletrifica o leitor de maneira arrepiante e imprevisível – e prova que Peter Straub é, indiscutivelmente, um mestre do horror moderno.

Lee Harwell, um famoso escritor já na meia-idade, está passando por certo bloqueio para escrever sua nova obra, que seu agente indica que seja um não-ficção. Procurando ideias em sua mente, ele topa com um fato do passado que sempre o incomodou.
Uma noite, na década de 60, quando estava no ensino médio, em que sua atual esposa e um grupo de amigos vivenciaram um verdadeiro massacre. 

Um guru chamado Spencer Mallon, de passagem por uma cidade universitária, reúne um pequeno grupo de discípulos, entre eles os amigos de Lee. Com suas sábias palavras e relatos que traz na bagagem, Spencer logo cativa aquelas pessoas, que passam a seguir todos os seus passos e reverenciá-lo. Lee foi o único que não o conheceu, sempre se recusando a acreditar nas "besteiras" que o homem dizia para sua namorada Eel.

O que aconteceu naquela noite em especial foi um total mistério para o escritor até os dias de hoje. Mas ele não pode mais ficar por fora; sente que precisa saber todos os detalhes, sob todos os pontos de vista. Quem sabe escrever um livro sobre aquilo.

Encorajado a desvendar o que realmente aconteceu, ele vai atrás dos "seguidores" de Mallon naquela época. Porém, não será tão fácil destrinchar tudo sobre o evento, que deixou sequelas em todos eles. Sua esposa ficou cega; Hootie, enlouqueceu; Boats se tornou um ladrão ainda mais experiente e Don um criminoso.

Naquela noite, um ritual deu errado, ou certo demais. Ao tentarem invocar algumas forças, invocaram também ruína e destruição. Cada um naquele circulo formado viu e sentiu algo diferente; algo aterrorizante e de tamanha força que se apoderou deles durante o tempo em que permaneceram ali. Morte, destruição, carnificina e crueldade; feiura e podridão. Abriram uma fenda no tempo e nada de bom poderia sair dali. Noite que terminou com um morto, um desaparecido e muitas almas abaladas.
  Um Passado Sombrio é um lançamento recente da editora Bertrand Brasil, que já publicou outros dois livros do autor. 
Sendo muito elogiado e indicado pelo mestre do terror e seu amigo Stephen King, com quem escreveu duas obras, foi impossível não criar expectativas com a leitura. 

Peter Straub é demasiado descritivo, o que tornou a leitura muito lenta em alguns momentos. A narrativa é em primeira pessoa, e por não ter sentido empatia pelo Lee, personagem que não convence como principal, acabei não aproveitando tanto a obra, que possui uma premissa realmente boa.
Os outros personagens foram bem construídos. Gostei principalmente de Howard (ou Hootie), que acabou passando décadas preso em um hospital psiquiátrico, se comunicando através de frases dos livros que lia, em especial A Letra Escarlate; devido sua memória fotográfica.
''Howard me disse: As palavras criam liberdade também, e eu acho que são as palavras que vão me salvar. Impressionante, eu achei, já que num certo sentido foram as palavras que o aprisionaram.''

Não esperem muito dele como um exemplar de terror, pois se encaixa melhor no gênero suspense / thriller psicológico. Apesar de o autor tentar introduzir alguns elementos sobrenaturais no texto, não é nada aterrorizante. Eu, pessoalmente, não senti medo ou nada parecido. Toda a descrição de ambiente passa sim certa "obscuridade", mas não vai muito além disso.

Eu pessoalmente não gostei tanto de Um Passado Sombrio como esperava, mas acredito sim que pode agradar outros leitores, principalmente os que curtem livros descritivos e diálogos longos.

A edição está muito boa e não encontrei erros de revisão que me atrapalhassem durante a leitura. A capa é muito bonita; ouso dizer que é a mais bonita entre as que publicaram do autor até agora. As folhas são brancas e o espaçamento é bom.



*Exemplar cedido em parceria com o Catálogo Literário do Grupo Editorial Record. 

domingo, 27 de março de 2016

A Revolta da Cachaça, de Antonio Callado

"Digamos, pra chegar à justa medida, que a peça passou a ocupar em mim o espaço que a gente tem para o amor. E meu espaço para o amor é muito grande." 


Skoob | 126 páginas || Editora José Olympio
*Exemplar cedido em parceria com a editora


A Revolta da Cachaça foi o último volume do chamado "teatro negro" de Antonio Callado; jornalista, dramaturgo e romancista, Callado faz nesse livro uma metáfora sobre a condição dos negros no Brasil e no teatro. 

Dadinha e seu esposo Vito, um dramaturgo, ambos brancos, recebem em sua casa um tonel de origem misteriosa, cujo conteúdo é cachaça da melhor qualidade. Eles ficam intrigados com aquilo, mas não demora muito até descobrirem quem enviou, pois é quando Ambrósio, ator negro e amigo de longa data de Vito, bate à porta do casal e revela que foi ele quem enviou o presente. 

Presente esse que serviu para lembrar ao dramaturgo da peça que ele prometeu ao inesperado visitante e que nunca terminou de escrever. Ambrósio tem fome da peça, é nela que pensa e é ela que vai buscar ali, pois já não aguenta mais esperar pela boa vontade de Vito. 
A Revolta da Cachaça é o título da almejada peça, que faz referência a um episódio de mesmo nome que se deu no Rio de Janeiro, em 6 de abril de 1661, e que resultou na morte de João de Angola e Jerônimo Barbalho, que foram decapitados por irem contra a proibição da produção de cachaça. 

Essa seria a Grande Oportunidade de Ambrósio; a oportunidade de enfim ter seu merecido destaque em uma produção, de brilhar! Está cansado de encenar mordomos e bandidos. 

Os três amigos engatam uma conversa regada à cachaça, e logo os ânimos se exaltam e o clima pesa. Dadinha quer relembrar o passado, enquanto Ambrósio sofre pela peça de sua vida e Vito tenta se livrar das investidas dos dois. 


"Eu penso na glória como quem pensa numa vingança, sabe? Um saco, Vito, uma merda. É uma merda a gente viver com pena da gente mesmo! Eu tenho dias de chorar só de ver no espelho minha cara. (ri, entre as lágrimas) E minha cara não está ficando mais bonita com o passar do tempo, não." 

Uma leitura rápida, mas extremamente interessante. Nunca tinha lido uma peça antes, e essa experiência não poderia ter sido melhor! Escolhi começar por esse, pois assim que li o título no catálogo da editora, fiquei imensamente curiosa! Antonio Callado foi um grande romancista e dramaturgo brasileiro, e A Revolta da Cachaça foi uma de suas últimas peças.

O texto, com 3 personagens principais, é sagaz e nos faz pensar, e acredito que foi isso que o autor quis, sobre a situação do negro no brasil, mais especificamente no teatro e nas grandes mídias; o preconceito que sofrem e a falta de oportunidades em grandes papéis, que não lhe são atribuídos por não se "enquadrarem" nos mesmos.


Essa leitura, por incrível que pareca, me causou muitas risadas, confesso. Algumas situações nas quais os personagens são colocados foram tão cômicas e improváveis que me peguei rindo não uma ou duas, mas várias vezes.

"O que é isso, cara? Pirou de vez? Ou está bancando o ciumento para me despachar da sua vida e não terminar a peça nunca? (ameaçador) Só tem uma coisa: você me mata como artista, mas em compensação eu te mato e ponto final!"

Essa edição, da José Olympio, é um lançamento recente e possui dois ótimos textos de apoio! A capa segue o mesmo padrão dos outros livros do autor publicados pela editora.

Livro indicado a todos!