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sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Senhora de Wildfell Hall, de Anne Brontë

Autora: Anne Brontë
Título original: The Tenant of Wildfell Hall
Editora: Record
Ano: 2017
Páginas: 504
Skoob
*Exemplar recebido em parceria com a editora.
Sinopse: Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.
Anne é a mais nova das irmãs Brontë, uma tríade de grandes escritoras que causaram grande rebuliço em sua época, no século 19, tendo que escrever sob pseudônimos masculinos para conseguir publicar suas obras. Charlotte, a irmã mais velha, é autora do romance Jane Eyre e Emily, irmã do meio, é autora do livro O Morro dos Ventos Uivantes. Essas duas obras são das mais aclamadas da literatura inglesa e as autoras figuram na lista de favoritos de milhares de leitores ao redor do mundo. Seu primeiro romance publicado foi Agnes Grey, um livro baseado em em suas experiências como governanta, sua profissão de 1839 a 1845. O livro não fez nenhum sucesso e vendeu pouquíssimas cópias.

Seu segundo e último romance, A Senhora de Wildfell Hall, foi também publicado sob o pseudônimo de Acton Bell, e provocou duras críticas ao conteúdo ali presente, principalmente pelas posições dos personagens masculinos e suas ações e pelas atitudes e ideias da protagonista, uma mulher forte e independente que foge de um casamento abusivo. Esse é considerado um dos primeiros romances feministas, publicado em 1848.

Anne morreu aos 29 anos vítima de uma tuberculose, apenas um ano depois que sua obra de maior repercussão foi publicada. Ela ainda escreveu um prefácio à segunda edição, texto que está presente na edição aqui resenhada. No prefácio, Anne escreveu o seguinte:
"Meu propósito ao escrever as páginas seguintes não foi apenas divertir o leitor; tampouco satisfazer meu próprio gosto ou ganhar as boas graças da imprensa ou do público: meu desejo era relatar a verdade, pois a verdade sempre comunica sua própria moral para quem é capaz de absorvê-la. Mas, como esse tesouro precioso com frequência se esconde no fundo de um poço, é preciso coragem para mergulhar em busca dele, principalmente porque é provável que quem o fizer vá despertar mais desdém e desaprovação pela lama e água onde ousou se misturar do que gratidão pela joia que obteve; pe possível comparar isso com a situação de uma mulher que se prontifica a limpar os aposentos de um homem solteiro e descuidado, ouvindo mais reclamações pela poeira que levantou do que elogios pela limpeza que fez.".

E logo depois comenta sobre a dedução que alguns críticos fizeram sobre Acton Bell ser na verdade uma mulher:
"Irei interpretar essa dedução como um elogio à boa delineação de meus personagens femininos; e, embora não possa deixar de atribuir boa parte da severidade de meus censores a essa suspeita, não farei esforços para refutá-la, pois, para mim, se o livro é bom, o sexo de seu autor não é significativo."
No livro conhecemos então Helen Graham, que chega na propriedade de Wildfell Hall com seu filho, o pequeno Arthur, em vestes de luto, o que dá a entender que se trata de uma jovem viúva buscando novos ares para sua pequena família. Mas sua personalidade reclusa e a forma como educa o filho causa um burburinho entre seus poucos vizinhos, que logo começam a julgar o comportamento de Helen e questionar sua presença naquele lugar.

Esses comentários odiosos fazem com que o jovem fazendeiro Gilbert Markham arda de indignação pois, único amigo daquela mulher misteriosa e quem a conhece melhor ali, além de perdidamente apaixonado por ela, sabe essas fofocas nada mais são que mentiras inventadas para macular a reputação da pobre dama.

Mas alguns comentários não são assim tão absurdos, e ele se questiona sobre o que realmente sabe sobre ela, que quase nada revela sobre onde veio e o que lhe aconteceu. Para explicar suas motivações e tentar fazê-lo compreender sua atitude arredia e pouco comunicativa, além dos motivos por não poderem ficar juntos, Helen o entrega seu diário, onde escreveu por muitos anos sobre sua relação com Arthur Huntingdon, desde antes do noivado, e cada detalhe do casamento infeliz que teve com um homem alcoólatra e infiel, que ameaçava a educação e as virtudes do único filho do casal.

A narrativa de Gilbert se dá através de cartas que escreve para um amigo, onde resolve contar desde o começo a história da senhora de Wildfell Hall. A narrativa de Helen é através das páginas de seu diário; e enquanto as cartas de Gilbert têm um ar de juventude e paixão arrebatadora, as páginas de Helen trazem ao leitor um peso que vai aumentando conforme seu afeto por seu marido vai diminuindo, e quando conseguimos enfim ver quem ele realmente é e como nossa protagonista muitas vezes fecha os olhos para atitudes imperdoáveis do mesmo. O que vemos é um relacionamento abusivo com Helen querendo ser uma mãe para o marido, educando-o e repreendendo-o, achando que conseguiria mudá-lo e finalmente vendo o quanto seus esforços eram dispensados e inúteis; enquanto Arthur ia se tornando cada vez mais dependente do álcool e das "farras" em Londres.


Helen é uma mulher muito apegada a sua religião, e seus atos são todos marcados com trechos de evangelhos, que ela consegue encontrar para cada situação. Ela justifica atitudes com passagens da bíblia e acredita em céu e inferno. Anne Brontë foi uma mulher muito religiosa, e passou isso para sua heroína.
"É possível olhar nos olhos de alguém, ver o coração da pessoa e descobrir mais sobre a altura, a largura e a profundidade de sua alma em uma hora do que em uma vida inteira, e o outro não estiver disposto a revelá-la ou se você não tiver a inteligência de compreender o que vê."
O subtítulo do livro poderia muito bem ser "Retrato de um relacionamento abusivo no século 19", pois é justamente o que ele mostra, e como um relacionamento abusivo não se resume a agressão física, mas é muito mais complexo que isso: aqui o personagem diminui a mulher sempre que tem a chance, é extremamente possessivo e atribui a ela o motivo por precisar beber e sua infidelidade, além de não respeitá-la e colocar seu filho contra a mãe.

É triste ver nossa heroína tentando "aguentar" o que lhe acontece, por acreditar que aquilo foi escolha dela e por isso precisa ficar naquele ambiente. O momento que cai em si e começa a planejar sua fuga é o mais emocionante em todo o livro.


Não acredito ser possível escrever aqui sobre os personagens dessa obra e ser bem sucedida em fazer com o que você, leitor, visualize o quão complexos eles são e como a autora foi feliz nos temas que abordou e no formato que escreveu o livro. Só posso dizer que esse foi um dos melhores livros que já li e que recomendo para todos. Não se assustem pelo seu tamanho (500 páginas), pois de forma alguma é uma leitura difícil.

A tradutora, Julia Romeu, fez um ótimo prefácio onde fala sobre a autora e suas obras, e foi um importante texto de apoio para me situar à época em que foi escrito e sua importância.

Essa nova edição do livro, publicada pelo Grupo Editorial Record em 2017, tem o texto integral, prefácio da autora e da tradutora, uma capa simples e bonita páginas amareladas, com bom tamanho de fonte e espaçamento.

Leitura recomendadíssima! 

20 comentários :

  1. O livro acabou de entrar para os meus desejados! Eu já havia ouvido falar das irmãs, mas nunca li nada delas. Só havia assistido o filme Jane, que foi incrível. Enfim, fiquei bastante curiosa pra saber como a autora retratou o relacionamento abusivo naquela época, e o pior é que a gente sabe que isso acontece atualmente. Já fiquei revoltada e emocionada com sua resenha, imagine lendo o livro. Espero ter oportunidade de ler a obra, pelo visto vale muito a pena.
    Beijos

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  2. Ola
    Nunca li nada da autora, mas adorei poder conferir sua resenha e fiquei bem curiosa quanto ao enredo, especialmente por conta dos personagens, diante de toda a complexidade pelo que pude compreender, além da riqueza de elementos que chamam muito a minha atenção. Irei procurar para fazer a leitura também.
    Beijos, F

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  3. Não conhecia o livro, mas fiquei muito curiosa pra conferir, e isso se dá não apenas pelo conteúdo do livro, mas pelo texto de apoio falando sobre a autora e um pouquinho sobre sua vida, foi isso que me fez ficar mais curiosa pra ler. Por ser de uma época extremamente machista, e sendo a feminista que sou, creio que a leitura desse livro, assim como o livro das outras irmãs sejam obrigatórias, pra entender como o mundo funcionava na época e ver o que mudou de lá pra cá.
    Obrigada pela dica!

    Virando Amor

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  4. Boa tarde!
    Até então, não tinha lido resenha alguma da obra, mas confesso que só de ler essa já fiquei interessado nela. Adoro histórias fortes e informativas com personagens bem construídos e um bom enredo, são sempre bem-vindas. Já ouvi falarem muito bem da autora, espero poder conferir alguma de suas obras logo, logo.
    Abraços.

    Livroterapias

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  5. Oi Gabrielly,
    A fama das irmãs Bronthe a precedem até hoje, cheguei a ler o morro dos ventos uivantes mas não consegui gostar da história e muito menos dos seus personagens, então nunca mais desejei ler novamente um livro dessa tríade talentosa, até agora. Nunca tinha ouvido falar desse livro e admito que abriria uma exceção para conhecer essa história permeada de eventos relevantes que assim como você descreveu causou rebuliço na época em que foi publicado. Amei sua resenha e mais ainda por pelo conteúdo a cerca da autora e suas irmãs disponibilizados no inicio.

    Beijos!

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  6. Olá!
    Bom, eu estou lendo esse livro nesse momento, e confirmo tudo que disse, a história é simplesmente perfeita, e com uma carga de transmitir ao mundo seja naquela época seja nos dias atuais o que todos precisam entender: a importância da mulher para o mundo. Eu gostei muito da escrita da autora, ela possui uma forma singela de detalhar e narrar os pensamentos dos personagens de forma impressionante! Confesso que estou cheio de expectativas para o final do livro. E concordo com você é um pouco complicado descrever com perfeição o que cada personagens representa dentro do livro. Enfim... gostei da sua resenha, e quem puder ler o livro leia!

    Abraços
    Dicas Literárias

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  7. Olá Gabrielly,
    Você acredita que ainda não li nada da Anne Brontë? Li "Morro dos Ventos Uivantes" e a leitura me agradou muuuito, mas o tempo para ler outras coisas das irmãs não chegou ainda :(
    A personalidade da Helen me agradou, pois gosto da ideia de ela ser assim, focada em religião. A questão de o livro conter cartas me atraiu bastante.
    Vou anotar a dica e tentar ler nessa edição completa.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  8. Oie! Tudo bem?

    Guria se falando das irmãs Bronte com toda a certeza que irei realizar a leitura da obra, sou apaixonada pela história criada pela Emely, com certeza amarei essa também! Dica mais que anotada, espero conseguir realizar a leitura em breve!

    Bjss

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  9. Oi.
    Escrever um romance de época nos dias atuais tendo como protagonista uma mulher forte, determinada e a frente do seu tempo é um coisa. Escrever esse mesmo livro na época em que os fatos são narrados é outra totalmente diferente. A autora foi foda por escrever um livro assim naquela época e acho que um ultraje não lê-lo, até porque é um tema atual.
    Adorei a dica e a contextualização no início da resenha, fez toda a diferença.
    Beijos.

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  10. Olá!

    Eu adoro filmes clássicos com mulheres fortes, mas tenho uma certa dificuldade para leitura, mas pela sua resenha acredito que irei me interessar muito por esse livro, pois a temática é algo que ando lendo e procurando entender melhor e mesmo sendo fictício, acredito que essa narrativa que tem uma visão de como as coisas eram possa me interessar profundamente e me agradar bastante além de ter uma capa muito linda. Sua dica está anotada com todo o carinho, pretendo conferir a história assim que tiver um tempo.

    Beijos e Sucesso!!

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  11. Oiii,

    eu não conhecia a autora, mas adorei saber que é uma história de época bem atemporal mesmo, é o que deixa estes livros interessantes. Mas admito que fiquei triste de perceber que desde aquela época o mundo mudou tão pouco quanto ao tipo de criticas as respeito de relacionamentos abusivos, eu fiquei muito interessada e bem curiosa para saber como ela traçou os planos da fuga até o momento em que efetivamente fugiu, mas me desanimei um pouco pelo livro ser composto por cartas e escritas em diário, porque é um formato que me incomoda um pouco na hora de ler, eu fico sentido que falta algo da história.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com/

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  12. Minha nossa menina como pode eu não ter o conhecimento desse livro até ler sua resenha.
    Não sou muito fã de classicos, mas amei o livro O Morro dos Ventos Uivantes e sem duvidas em se tratando das irmãs Bronte esse livro deve ser de igual sucesso.
    Já está na lista com certeza!

    beijos
    Livros & Tal

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  13. Olá, Gaby

    Eu nem sabia desse livro, só descobri sua existência no Chá de Época da Record! Realmente relacionamentos abusivos não se resumem a agressões! Eu acho que vou gostar muito do teor mais sério desta narrativa, pois costumo ler muitos romances de época, mas semore são aqueles mais despretensiosos... essa leitura tem mais seriedade. Vou ler com certeza!

    Beijos

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  14. Olá!
    EU QUERO MUITOOOOOOOOOOO LER ESSE LIVRO!Sou realmente apaixonada por essa capa e esse enredo <3 Fico triste pela mocinha aguentar esse relacionamento abusivo, e eu totalmente acredito em você quando fala que a parte do planejamento da fuga é emocionante, acho que eu ficaria eufórica e ansiosa pelo resultado. Enfim, muito obrigada pela dica e a sua resenha está MARAVILHOSA, só me deixou com mais vontade de conhecer a obra ♥
    Um beijo

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  15. Olá!
    Não conhecia esse livro e nem a autora.
    Não me senti atraída por esse livro pelo simples fato de que fico morrendo de raiva quando uma mulher, no caso a personagem se deixa estar em um relacionamento abusivo.
    Mesmo sendo rico em detalhes e até emocionante, não me interesso por esse tipo de leitura.
    Mas a indicação está anotada caso eu mude de ideia.

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  16. Olá, tudo bem?

    Eu conhecia o livro A Senhora de Wildfell Hall apenas pelos informativos da Record. Eu particularmente gostei da sua resenha e me senti interessado pela leitura. Adorei a capa e o enredo parece ser envolvente, gosto também de personagens complexos e o livro parece que oferece isso, segundo suas palavras. Dica super anotada, agora é esperar uma oportunidade para ler esse livro!

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  17. Oiii tudo bem, eu não conhecia o livro e conforme você foi descrevendo a história eu fui vendo o quanto é verídica, muitas mulheres passaram por isso e ainda passam e isso é muito triste. Quanto ao livro parece uma história boa, com bons personagens, embora a premissa seja um pouco pesada tratando de um assunto tão sério e tão polêmico, a sua resenha mostrou ser uma leitura leve e interessante. Gostei bastante beijos http://fonte-da-leitura.blogspot.com.br/?m=1

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  18. Hey!
    Que capa fofa, não conhecia a obra, muito menos sabia a história por trás dela, achei a premissa muito interessante, gosto de livros escrito por mulheres que venceram o mal do seu tempo. Vou procurar mais sobre a obra e autora, pois não conhecia nenhuma e anotar a dica.
    Beijos.

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  19. Oláa!!
    Confesso que desses todos só li O Morro dos Ventos Uivantes e já ouvi falar de Jane Eyre, mas nunca li...
    O enredo desse livro da irmã que eu não conhecia me interessou bastante, pois podemos perceber como começaram algumas atitudes consideradas feministas em uma época onde somente o homem tinha a palavra (tanto que a autora usou um pseudônimo).
    Adorei a dica e vou procurar para conhecer melhor a história.
    Um beijo

    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  20. Adoro as irmãs Brontë, mas esse livro eu não li ainda. Confesso que fiquei bastante curiosa para realizar a leitura. Fiquei aqui pensando na sua ideia para o subtítulo, e acho que ela deve dizer muito sobre o livro. Mas se temos relacionamentos abusivos ainda hoje, em pleno século 21, imagina o que não era no século 19. Adorei a sua resenha e já estou doida para conferir a obra.

    Tatiana

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Obrigada por comentar!