Favoritos de 2014 (em construção)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Resenha || Trópico de Câncer, de Henry Miller

José Olympio, 2017 || 290 páginas || Skoob
Sinopse: Publicado orginalmente em 1934, em Paris, Trópico de Câncer foi imediatamente proibido em todos os países de língua inglesa. Tachado como pornográfico, assim como seu sucessor Trópico de Capricórnio, só foi liberado nos Estados Unidos e na Inglaterra nos anos 1960, aclamado como parte da revolução sexual. O livro foi celebrado pelos maiores intelectuais da época e se tornou um dos grandes clássicos da literatura americana. Samuel Beckett o saudou como “um evento monumental da história da escrita moderna”. E outros nomes como T. S. Eliot, Ezra Pound e Lawrence Durrell também notaram rapidamente o talento de Miller. O livro traz um relato autobiográfico e idiossincrático de Miller, que chega a Paris após abandonar nos EUA um casamento arruinado e uma carreira estagnada. Mesmo sem um centavo no bolso, Henry Miller é apresentado à boemia francesa e redescobre seu próprio talento em dias e noites de liberdade e alegria sem fim.  

RESENHA ✍

Henry Miller foi um escritor norte-americano de grande sucesso no século XX por suas obras polemicas e seu estilo "cru" de escrita, tento por muitas vezes misturado autobiografia com ficção em suas narrativas. Alguns de seus escritos, como no caso do presente título, foram alvo de diversas críticas acerca de seu conteúdo polêmico. Para vocês terem uma ideia, Trópico de Câncer só veio a ser publicado no nosso país nos anos 70, mais ou menos 40 anos depois de sua primeira impressão, na França. Sim, França. Trópico de Câncer, escrito por um americano, só teve sua publicação nos EUA em 1961, quando deixou de ser proibido.

E essa proibição, tanto nos EUA quanto em outros países, se deve ao fato de o conteúdo de Trópico de Câncer ter sido por muitos anos (e ainda hoje, em uma escala um pouco menor) considerado e vendido como pornográfico, obsceno, onde Henry Miller descreve sem nenhum pudor ou floreio sua vida na capital francesa, regada por álcool, sexo e muita confusão.
"Que Paris enorme! Levaria uma vida inteira para percorrê-la outra vez. Essa Paris, cuja chave só eu tenho, mal se presta a uma excursão, mesmo com as melhores intenções; é uma Paris para ser vivida, que tem que ser provada a cada dia de milhares de formas diferentes de tortura, uma Paris que cresce por dentro como um câncer e continua crescendo até comer você." 
Primeiro de dois livros, Trópico de Câncer foi, sem sombra de dúvida, um livro que provocou toda uma sociedade em sua época de publicação, tendo sido acusado de pornografia e rechaçado durante muitos anos pelo seu conteúdo chocante para aquela época. Mas as descrições lascivas e espírito libertino em sua obra é também o que seduz alguns leitores enquanto repele outros.



O livro segue um personagem, sendo este o autor, em um relato autobiográfico com um pé na ficção, onde ele se encontra sem um único sou no bolso, muito menos um lugar próprio. O que esse personagem tem em abundância é um faro incontestável para lugares decadentes e pessoas como ele, sem dinheiro e famintas, tanto por comida quanto por diversão.
"Se algum homem ousasse dizer tudo o que pensa desse mundo, não sobraria um metro quadrado de terra para ficar de pé. Quando aparece um homem, o mundo cai em cima dele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre colunas apodrecidas demais, humanidade pustulenta demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um grande e trêmulo medo. (...) Se, de vez em quando, encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, que arrancam gemidos, lágrimas e pragas, sabemos que elas vêm de um homem encurralado, cujas únicas defesas são as palavras, e suas palavra são sempre mais fortes que o peso esmagador e falso do mundo, mais fortes do que todos os flagelos e rodas de tortura que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade."
O autor descreve, descaradamente, uma Paris dos anos 30 suja e tomada por doenças e depravação. As drogas, a prostituição e o desemprego são abordados por Miller em uma narrativa em primeira pessoa sem obedecer a nenhuma sequência linear, com capítulos curtos que podem ou descrever uma noite com alguma mulher ou fazer uma reflexão sobre tópicos profundos. E é aí que se mostra uma face do autor que poucos conhecem.

O livro é uma montanha russa imprevisível. Uma hora Miller faz um retrato jocoso e degradante sobre um indivíduo ou situação, com sua escrita crua e direta; pouco depois, vem um Miller filosófico e faz reflexões profundas sobre sua situação.
"Bóris acaba de me fazer um resumo de suas ideias. É um profeta da meteorologia. Diz que o tempo vai continuar ruim. Vai haver mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há qualquer sinal de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está nos corroendo. Nossos heróis se mataram, ou estão se matando. O herói, portanto, não é o Tempo, mas a Ausência de Tempo. Temos de acertar o passo, um passo ritmado, rumo à prisão da morte. Não há saída. O tempo não vai mudar."
Esses altos e baixos na narrativa dão uma cara mais real para o livro, e assim ele parece menos uma ficção que uma autobiografia. Foram essas mudanças abruptas entre palavras elegantes e relatos caóticos e ansiosos de uma vida precária que me fizeram gostar da obra. Henry Miller pode ter sido acusado de obscenidade, mas a honestidade em suas palavras é inegável quando mostra na "cara dura" o que outros autores de sua época optaram por esconder ou maquiar.

Trópico de Câncer foi lançado pela primeira vez na década de trinta, desafiando códigos de comportamento sobre a sexualidade em uma sociedade ainda muito apegada a tradições e todo o contexto "familiar". Depois da revolução sexual, sua obra teve ainda mais destaque, sendo objeto de discussão sobre a liberdade sexual, além da liberdade poética. Alguma dúvida de que esse livro teve um grande e importante impacto na literatura? E não sou só eu que o acho; autores como Samuel Beckett  e George Orwell elogiaram, sobretudo, a honestidade na obra de Henry Miller, mesmo sem dividir exatamente dos mesmos valores morais do autor.
"Fiz um pacto tácito comigo de não mudar uma linha do que escrevo. Não estou interessado em melhorar meus pensamentos nem meus atos. Ao lado da perfeição de Turgenev, ponho a perfeição de Dostoiévski. (Existe algo mais perfeito do que O eterno marido?) Aqui, portanto, pelo mesmo meio de comunicação, temos duas espécies de perfeição. Mas nas cartas de Van Gogh há uma perfeição que ultrapassa essas. É a vitória do indivíduo sobre a arte."
Essa foi, de fato, uma leitura de altos e baixos, que me levou a trancos e barrancos e despertou diversas reações e reflexões. Fiquei várias vezes entre amor e ódio, sorrisos e carrancas. Mas uma coisa é certa, a experiência de leitura foi única e memorável, e tenho certeza de que me pegarei relendo um dia.

Essa nova edição saiu em 2017, depois de o livro ficar por alguns anos esgotado e difícil de encontrar por um preço justo. A editora José Olympio finalmente reeditou o livro e agora todos podem ter acesso a obra por um preço justo e em uma edição agradável e com ótima tradução de Beatriz Horta.

Já tenho Trópico de Capricórnio em mãos, livro que narra os anos anteriores à mudança de Miller para a frança, quando ele ainda estava nos Estados Unidos. Em breve teremos resenha por aqui!

16 comentários :

  1. Olá...
    Adorei sua resenha!
    Ainda não tinha visto essa obra em nenhum outro blog e estou aqui FASCINADA! O enredo, premissa, personagens é tudo muito interessante e o fato de nunca ter lido nada sobre Paris na década de 30 me animou ainda mais a ler.
    Dica anotada!!!!
    Bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que se interessou pela leitura, Diane! Fico muito feliz <3
      Beijos!

      Excluir
  2. Já tinha ouvido falar do livro, mas não sabia do que realmente se tratava, mas pelo que me disse me lembrou bastante os livros de Charles Bukowski , que eu particularmente gosto muito, então acredito
    que seria uma boa pedida para mim, mas deixo a dica anotada e vou aguardar a resenha do próximo livro, espero ter a oportunidade de ler.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que leia e curta bastante também :D
      Beijos!

      Excluir
  3. Eu ainda não conhecia o livro e fiquei curiosa com esse mix de autobiografia e ficção cientifica, embora isso não tenha nada a ver com o meu perfil de leitora. As suas fotos ficaram lindas!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tem nada a ver com ficção científica, Ivi! hahaha
      Acho que se enganou.
      beijos!

      Excluir
  4. Olá, acho que é a primeira resenha que leio desse livro, apesar de já o conhecer de nome. Parece mesmo uma leitura marcante. Interessante esses altos e baixos que a trama tem e toda a repercussão e polêmica que causou na época do lançamento.

    ResponderExcluir
  5. Olá!
    Eu não conhecia essa obra, mas ao ler suas impressões percebi que é bem autobiográfico né?!
    Apesar de abordar alguns temas interessantes e polêmicos, não seria uma leitura que me agradaria realizar.
    Mas gostei de conhecer mais através das suas considerações. Quem sabe em uma nova dica eu não consiga aproveitar.
    Beijos!

    Camila de Moraes

    ResponderExcluir
  6. Oi Querida!
    Ainda não tinha lido nenhuma resenha sobre esta obra, mas já posso dizer que fiquei encantada com a premissa do livro. Mesmo com alguns pontos não me agradando muito, achei toda a obra bem genial, e com certeza ou dar uma lida nesse livro em 2018.

    P.S Adorei a resenha, e de como foi sincera com o livro. Boas festas!

    Beijoss, Enjoy Books

    ResponderExcluir
  7. Sua resenha veio em ótima hora! Eu estava procurando por classicos contemporâneos para ler e com certeza Henry é um deles, meu professor de teoria literária fala que ele foi um marco para literatura e você acabou de explicar os motivos, espero poder ler em breve.

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  9. Nunca tinha ouvido falar desse autor, só de ler o título dessa obra já fiquei curiosa, gostei muito de você ter começado o post com curiosidades sobre o livro! Ótima resenha!
    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Oiee Gabi ^^
    Eu também não conhecia o autor, e apesar de ter achado a premissa do livro interessante (principalmente por ser tão crua e aparentar real), não sei se o leria agora. Estou querendo ler mais clássicos e já coloquei alguns na meta para 2018, e acho que vou colocar este também. Quem sabe acabo gostando, né?
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  11. Oi, tudo bem?
    Eu confesso que nunca tinha ouvido falar desse livro. Apesar de ter ficado um pouco curiosa por causa de toda polêmica que ele causou, o enredo não despertou minha curiosidade. Talvez só não seja o tipo de livro que procuro no momento, mas fiquei com a sensação de que é uma leitura que, para mim, seria bastante arrastada.
    De qualquer forma, adorei sua resenha e fico feliz que tenha sido uma leitura tão interessante para você.
    Beijos!

    ResponderExcluir
  12. Oi, Gabi. O livro não parece fazer meu perfil. Mas que bom que te agradou e que é uma obra que traz essa narrativa tão poética e reflexiva.

    ResponderExcluir
  13. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia o livro e também não tinha visto essa nova edição. Confesso que me surpreendi pelo que você disse com relação ao conteúdo e por ele ter conseguido ser publicado na década de 30. Não sei se ele faz o meu tipo literário, mas mesmo assim é um livro que eu arriscaria.

    ResponderExcluir

Obrigada por comentar!