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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Sem tetas não há paraíso, de Gustavo Bolívar Moreno

"Catalina entendeu que enfrentaria moinhos de vento, se preciso, para conseguir o dinheiro da cirurgia, uma vez que seu futuro estava condicionado ao tamanho de seus peitos."


Catalina é uma adolescente de 14 anos que mora em Pereira, na Colômbia. Leva uma vida simples, ao lado da mãe e do irmão mais velho; e seu futuro é incerto. Não gosta de estudar, mas também não quer continuar na miséria, nem se imagina casando e tendo uma vida ainda mais simples com seu namorado Alberto - um jovem ingênuo, que só tem olhos para ela -, ambiciosa que é. 

A alternativa é entrar para o mundo da prostituição, como fez sua amiga Yésica, agora uma cafetina, e tantas de suas colegas; meninas só um pouco mais velhas que Catalina que saem com traficantes e depois aparecem esbanjando dinheiro, roupas caras e ainda enchem a despensa de casa todo mês! É isso que a menina, virgem, deseja para si, mesmo que o preço a pagar seja seu próprio corpo. 

O problema chega em forma de peitos, ou melhor: na falta deles. Acontece que Catalina quase não tem seios, e para conseguir fazer programa com algum traficante endinheirado, precisa mudar isso. Na sua vizinhança, as meninas com mais peito são as mais "bem de vida".

Com o corpo ainda em formação e depois de escutar muitas besteiras e mau conselho, sua saga para conseguir a sonhada prótese de silicone começa. Catalina envereda pelo caminho tortuoso, perigoso e cheio de mentiras da prostituição e do crime organizado. Sofre as mais terríveis angústias; é enganada, machucada e iludida várias e várias vezes; mas ninguém consegue fazê-la mudar de ideia. 

"De fato, e fazendo as contas a respeito da dependência dos homens em relação às vaginas, se perguntou aterrorizada, no meio de sua dissertação: que teria sido dela se não tivesse uma?"

Sem Tetas Não Há Paraíso foi escrito de forma extremamente direta, quase que sem rodeios. É uma narrativa que logo de cara nos dá um tapa no rosto para nos acordar e vai jogando mais e mais informações no leitor. O livro é recheado de muita crítica à sociedade; ao governo, ao consumismo e à alienação das pessoas pelas industrias de beleza. Além de tratar de temas como prostituição infantil, tráfico de drogas, violência e também machismo e política.

Moreno não nos polpa dos detalhes, e por mais que ele não se atenha tanto às cenas mais "pesadas" de sexo e violência, elas existem, e por não serem tão descritivas acabam deixando que a imaginação do leitor o guie, e não sei se, levando isso em conta, fez mais bem ou mal.

Alguns pontos da estória me deixaram confusa; e acho que isso se deve a não ter tido um contato anterior com a realidade da pobreza e do tráfico de alguns lugares da Colômbia e também dos costumes deles por lá. Porém, acho que o autor poderia ter desenvolvido melhor alguns pontos do enredo.

Por exemplo, a maneira como uma adolescente de 15 anos pode fazer o que bem quiser (e estou falando de algo como uma cirurgia ou casamento na igreja) sem autorização legal me deixou estupefata. Isso e o fato de algumas personagens tratarem os mafiosos como verdadeiras estrelas de cinema, chamando-os de príncipes e até heróis! Fiquei horrorizada.
E isso mostra o quão longe estou dessas barbáries e o quanto ainda tenho que me inteirar sobre outras sociedades, não querendo dizer que moro no paraíso. 

O livro, apesar de abranger todos os assuntos já mencionados, tem um ritmo de leitura rápido. Conseguiu me prender de tal maneira que devorei suas 308 páginas em poucas horas de leitura. O final, tão cru e surpreendente como todo o livro foi até ali, me deixou ainda mais impactada e, assim que fechei o livro, passei muito tempo refletindo sobre a leitura e tudo de novo que ela me apresentou. 
Indico muito! 

"Sem tetas não há paraíso" pode ser considerado um exemplar da narcoliteratura, um novo gênero que vem crescendo cada dia mais, principalmente em países como México e Colômbia.