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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Uma, Duas, de Eliane Brum

"Porque é realidade demais para a realidade. Eu preciso de uma chance. Eu quero uma chance. Ela também. 
Quando digito a primeira palavra o sangue ainda mancha os dentes da boca do meu braço. Das bocas todas do meu braço. Depois da primeira palavra não me corto mais. Eu agora sou ficção. Como ficção eu posso existir." 

Sinopse: Esta obra trata da relação entre mãe e filha. Desde que seu pai deixou a família, diante de circunstâncias surpreendentes, a jornalista Laura e sua mãe, Maria Lúcia, mantêm uma relação distante, quase inexistente. Porém, um sério problema de saúde de Maria Lúcia acaba forçando a convivência das duas novamente.


"O capítulo um nasce ensanguentado." 

Não faço ideia de como resumir esse livro para vocês. Acabei de concluir a leitura e ainda estou tentando lidar com os sentimentos conflitantes que me invadiram. 
Nem essa pequena sinopse copiada acima encontrada na internet nem nenhuma outra conseguirá expor toda a glória e peculiaridade dessa obra tão estranha. Tão improvável. 

Este romance nos apresenta vida de mãe e filha. Do útero ao útero. Uma, extensão da outra. Ligadas pelo sangue, pela carne e pelas incertezas. Sofridas, cada uma ao seu modo. Não existe uma vilã. Ambas são mocinhas e megeras ao mesmo tempo. Vítimas e carrascas. Vitimas da crueldade das pessoas, da vida. Fortificadas pela dor e, ao mesmo tempo, enfraquecidas por ela. 

O livro já começa com Laura, a filha, se trancando no quarto para escrever seu livro. Ela vira ficção para tirar a mãe de dentro dela. Sangra com seus cortes feitos à faca para aliviar a pressão de ter seu corpo habitado pela mãe, e não só por ela mesma. Corta, sangra, escreve. Sua literatura escrita com sangue. 

A mãe, já enfraquecida pela idade mais ainda tão odiosa quanto quando a filha era pequena, é levada para morar com Laura depois de ser encontrada apodrecendo em seu apartamento. Sua saúde frágil não a impede de atormentar a mulher ainda mais. Com sua presença, seu cheiro, sua podridão. E também com sua versão da história. 

Essa ficção mais parece memória, de tão crua e visceral. Eliane Brum não economiza no sangue. Ela quer impressionar e ela consegue. A narrativa é intercalada entre passado e presente, e, chegado certo ponto, tem a versão da mãe. É loucura e ao mesmo tempo é realidade. Eliane nos entrega o mais podre do ser humano. É intenso, e sufocante; muitas vezes nauseante. É necessário ter estômago forte e mente aberta para ler esse livro. 

As personagens, imprevisíveis, não foram criadas para cativar o leitor. Longe disso. Nada que elas viveram no passado justifica suas ações no presente. É filha odiando a mãe e a mãe destruindo a filha. É um ódio que, por vezes, pode ser confundido com amor. Elas se amam tanto que se odeiam. Não é fácil de se acompanhar. 

A reviravolta no meio do livro vai confundir o leitor de uma maneira difícil de explicar. Foi totalmente necessário para uma compreensão maior do enredo; e ao mesmo tempo tão mais nauseante que tudo narrado até ali. 

"Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. (...) Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra." 

Fiquei, e estou até agora, embasbacada com a coragem; com a intensidade com a qual a autora escreveu essa obra. Ao mesmo tempo que me apavorou, o livro me desconcertou. Porque é bom! Tem qualidade. É intrigante. É maravilhoso. O final, tão ou mais intenso que o começo, é brutal. 


O livro possui 176 páginas e é dividido em 36 capítulos. Publicado pela editora Leya em 2011, a edição está impecável. O texto foi impresso em vermelho, referencia à própria estória; Laura escrevendo seu livro enquanto sangra. Fonte normal para narrar o presente, e em negrito para o passado. Tudo de muito bom gosto. 

Leitura indicada à todos que, como já ressaltei, têm estômago forte e mente aberta. Não é exagero quando digo que o livro é nauseante e inquietante, pois ele é. Uma, Duas é impiedoso e maravilhoso na mesma medida. Se deixe arriscar e leia essa obra.